26.8.08

Ensaio sobre a visão



“Ensaio sobre a cegueira” (Blindness), o novo filme de Fernando Meirelles inspirado no livro de José Saramago, tem todos os capítulos da velha batalha entre a obra escrita e a adaptação para o cinema. As traduções literais, as licenças poéticas do diretor, o corte de partes importantes do texto original. Tudo isso sem comprometer a qualidade e a emoção da película, que, ainda assim, fica alguns degraus abaixo do livro.

Isso pode soar óbvio, mas, no caso específico desta adaptação, um detalhe é ainda mais cruel com a obra audiovisual: um livro que fala sobre a cegueira causa uma ansiedade ainda mais intensa, já que o ato de ler, em si, é cego. Tudo é imaginado, nada é visto em um livro. Essa força se perde no filme, onde tudo é retratado. Mesmo com o diretor usando uma fotografia extremamente branca e “estourada” para transmitir a angústia trazida pela cegueira da história.

O roteiro, no entanto, consegue passar bem o conflito de uma humanidade que, de repente, se vê completamente cega e sem saber como agir. O roteirista Don McKellar, que também atua no filme no papel do Ladrão, manteve os pontos chave do livro e, assim, construiu uma história bem contada, que prende a atenção de quem assiste, ao mesmo tempo que mantém o lado filosófico da obra de Saramago, no qual o ditado “em terra de cego quem tem um olho é rei” é reinterpretado de uma maneira supreendente.

Ao contrário de “O Jardineiro Fiel”, filme anterior de Meirelles, que me parece “cinemão americano” com uma estética mais independente, o Ensaio pode ser encarado de maneira completamente oposta: um filme independente – tanto na concepção quanto na temática – com uma cara mais comercial. E, isso, no melhor sentido possível, quando o refinamento e o conhecimento da técnica estão totalmente à serviço da obra, além da presença de atores renomados do cinema holywoodiano.

E sobre as atuações, confesso ter um pouco de resistência à Alice Braga, sempre com um inglês que não é perfeito mas sem a humildade de se assumir assim. Ainda mais fazendo um papel de tanto destaque no filme (A Mulher de Óculos Escuros) e tendo que contracenar com a Julianne Moore, que dá um banho no papel principal e consegue até ficar feia em alguns momentos do filme. Mark Ruffalo e Danny Glover, que merecia mais momentos no filme, fazem um “par perfeito” com as duas atrizes.

No fim das comparações entre a obra de Saramago e a de Meirelles fica a satisfação de poder aproveitar as duas sobre pontos de vista diferentes. Sem trocadilho.

“Ensaio Sobre a Cegueira” estréia no circuito comercial brasileiro dia 12 de setembro.

3 comentários:

r! disse...

Tomara que seja melhor que o trailer q vi, que foi decepcionante. Aliás, vou pensar se quero ver esse filme mesmo, tou fugindo de coisas que deixam angustiado.

l. disse...

Eu gostei do trailer, r! Achei ele totalmente fidedigno ao livro, seja isso bom ou ruim. Mas acho que é um filme com vários motivos para se ver. Abs! l.

Diego Reigoto disse...

Li o livro quando ainda estava no Ensino Médio e fiquei encantado e aterrorizado ao mesmo tempo. A história é incrível, mas difícil, quase cruel, não sei se ficará bem entendível no filme, uma vez que o livro nos proporciona maiores detalhes. Tornei a lê-lo (estou no último capítulo. Agora, aguardo com expectativas a estréia do filme.