
“Ensaio sobre a cegueira” (Blindness), o novo filme de Fernando Meirelles inspirado no livro de José Saramago, tem todos os capítulos da velha batalha entre a obra escrita e a adaptação para o cinema. As traduções literais, as licenças poéticas do diretor, o corte de partes importantes do texto original. Tudo isso sem comprometer a qualidade e a emoção da película, que, ainda assim, fica alguns degraus abaixo do livro.
Isso pode soar óbvio, mas, no caso específico desta adaptação, um detalhe é ainda mais cruel com a obra audiovisual: um livro que fala sobre a cegueira causa uma ansiedade ainda mais intensa, já que o ato de ler, em si, é cego. Tudo é imaginado, nada é visto em um livro. Essa força se perde no filme, onde tudo é retratado. Mesmo com o diretor usando uma fotografia extremamente branca e “estourada” para transmitir a angústia trazida pela cegueira da história.
O roteiro, no entanto, consegue passar bem o conflito de uma humanidade que, de repente, se vê completamente cega e sem saber como agir. O roteirista Don McKellar, que também atua no filme no papel do Ladrão, manteve os pontos chave do livro e, assim, construiu uma história bem contada, que prende a atenção de quem assiste, ao mesmo tempo que mantém o lado filosófico da obra de Saramago, no qual o ditado “em terra de cego quem tem um olho é rei” é reinterpretado de uma maneira supreendente.
Ao contrário de “O Jardineiro Fiel”, filme anterior de Meirelles, que me parece “cinemão americano” com uma estética mais independente, o Ensaio pode ser encarado de maneira completamente oposta: um filme independente – tanto na concepção quanto na temática – com uma cara mais comercial. E, isso, no melhor sentido possível, quando o refinamento e o conhecimento da técnica estão totalmente à serviço da obra, além da presença de atores renomados do cinema holywoodiano.
E sobre as atuações, confesso ter um pouco de resistência à Alice Braga, sempre com um inglês que não é perfeito mas sem a humildade de se assumir assim. Ainda mais fazendo um papel de tanto destaque no filme (A Mulher de Óculos Escuros) e tendo que contracenar com a Julianne Moore, que dá um banho no papel principal e consegue até ficar feia em alguns momentos do filme. Mark Ruffalo e Danny Glover, que merecia mais momentos no filme, fazem um “par perfeito” com as duas atrizes.
No fim das comparações entre a obra de Saramago e a de Meirelles fica a satisfação de poder aproveitar as duas sobre pontos de vista diferentes. Sem trocadilho.
“Ensaio Sobre a Cegueira” estréia no circuito comercial brasileiro dia 12 de setembro.